Desaparecimento de Cinthya Gama completa 1 ano e polícia não tem respostas

Manaus – “Era um dia ensolarado e bonito quando ela disse ‘Mãe, vou tomar banho para ir pegar o mano na escola’. Se arrumou, com um short saia rosa, uma blusa branca e uma sandália branca com a correia laranja. Com os cabelos amarrados estilo rabo de cavalo, pediu autorização para pegar um geladinho (dindin) no freezer e saiu de casa por volta das 11h. Foi a última vez que eu a vi”, relata, angustiada e com lágrimas nos olhos, a comerciante Cristina Batista da Gama, de 34 anos, mãe da jovem Cinthya Gama Pereira – desaparecida desde o dia 5 de outubro de 2016, em Manaus. As informações são do Portal Em Tempo.

Atualmente Cinthya está com 13 anos – Arquivo Pessoal

Há exatamente um ano começava o desespero de Cristina, mãe de Cinthya e outros quatros meninos. A jovem desapareceu misteriosamente após sair para buscar um dos irmãos na escola João Alberto de Menezes Braga, localizada no Vale do Sinai, bairro Cidade Nova, Zona Norte.

Aluna do 5º ano do ensino fundamental, Cinthya é a filha mais velha, além de ter sido a companheira fiel da mãe. Cristina conta que não gostava muito da ideia de ver a filha sair para i até à escola pegar o irmão, porém Cinthya, que na época estava com 12 anos, a fez concordar.

 “Ela dizia que havia mudado de escola e a única forma de voltar a ter contato com os amiguinhos dela, era quando ia buscar o irmão nessa escola. Ela saia sempre as 11h, ficava aguardando o irmão ser liberado às 11h30 e nesse meio tempo conversava com os colegas. No mais tardar, às 11h40 ela voltava, acompanhada do irmão e de mais um vizinho, que estudava na mesma escola. Para a minha infelicidade, ela não retornou para casa naquele dia”.

Angustiada ao ver passar às horas no relógio, a comerciante conta que entrou em desespero, após encontrar com o professor do filho na porta de casa.

“Eu estava na calçada, quando vi passar o meu vizinho, que dava aula para o meu filho. Perguntei se ele havia visto a Cinthya e o irmão, mas ele disse que não. Foi aí que eu tive a certeza de que algo estava errado”.

“Sai de casa no rumo da escola. Chegando lá, encontrei apenas meu filho, que na época tinha nove anos. Ele disse que a Cinthya não havia aparecido. Procurei nas redondezas, falava das características físicas, explicava como estava vestida, mas ninguém a havia visto. Um casal de pedreiros, que trabalhava em uma obra próximo a escola, era a minha única esperança de encontrar alguma informação a respeito, mas nem eles a viram”, lembra a mãe da estudante.

Pistas 

Uma criança teria contado para familiares de Cinthya que ela teria sido abordada por um homem em um carro preto. O suposto sequestrador a teria colocado dentro do veículo e fugido do local. No entanto, para a família, nunca houve indícios concretos sobre a versão. Eles ainda aguardam que surjam pistas que indiquem o paradeiro da menor.

O pai de Cinthya, o comerciante Janderson Bentes Pereira, conta com detalhes algumas das pistas a respeito da possível localização da filha.

“Cerca de quatro meses após o sumiço, recebemos um telefonema informando que ela estava sendo mantida em cárcere privado, no último quarto de um corredor, em um local onde havia várias kitnets. Acionamos a polícia e fomos ao lugar. A denunciante informava que a Cinthya estava recebendo refeições em um prato que era dado à ela por baixo da porta”, detalha.

Ainda segundo Janderson, ao chegar ao local, a família foi impedida pela polícia de entrar no imóvel. Segundo a equipe de investigação, o lugar apresentava as mesmas características apontadas na denúncia. “Era o último quarto no fim do corretor, havia um colchonete e um ventilador. Nem a Cinthya e nem ninguém foi encontrado lá. Foi mais uma pista falsa”, desabafa.

Outras três pistas sobre o paradeiro da garota chegaram à família e reavivaram ainda mais a esperança de encontrá-la. “Três pessoas, em três situações distintas, entraram em contato conosco e informaram terem visto a Cinthya na companhia de um homem loiro, branco, alto e magro. Disseram tê-la reconhecido no Terminal 1, na Constantino Nery, no bairro Mundo Novo, Zona Norte, e em uma pousada na Zona Leste, porém, em todos os locais das denúncias, não conseguimos achar pistas sobre ela”, confessa Janderson.

No Mundo Novo, Janderson conta que uma mulher ligou para a família e disse que o marido havia visto a garota em uma padaria, mas nunca retornou a ligação para informar o nome do estabelecimento e a localização exata. “Orientamos ela a dizer para o esposo dela observar em outras vezes se a Cinthya voltaria lá, mas nunca recebemos mais informações da mulher”.

Investigações

A frente das investigações está a delegada Juliana Tuma, titular da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Criança (Depca). Na época do desaparecimento, a autoridade policial ressaltou que toda a equipe de investigação estava empenhada para localizar a garota o quanto antes. Porém, há um ano o caso continua um mistério a ser desvendado.

Cinthya teria sido levada para outro estado? Outro país? Ou permanece ainda no Amazonas? A jovem estaria viva? Esses são alguns dos questionamentos diários da família Gama que, infelizmente, não foram respondidos até hoje pela Polícia Civil do Amazonas (PC-AM).

A reportagem do portal Em Tempo procurou a delegada Juliana Tuma, mas a assessoria da PC-AM informou que a mesma está de férias e que por enquanto a instituição não poderia se pronunciar oficialmente sobre o trabalho de investigação acerca do desaparecimento de Cinthya.

Enquanto isto, a família sofre em silêncio durante os 365 dias completados hoje, em que a jovem sumiu misteriosamente. Janderson conta que no início, a família mantinha contato com a delegada por telefone.

“Ligávamos para saber sobre as investigações, mas sempre eram as mesmas respostas. Teve uma vez que chegamos a sugerir oferecer uma recompensa em dinheiro para quem soubesse do paradeiro da Cinthya, porém a delegada informou que isso não era o correto a fazer e que poderia atrapalhar no andamento das investigações. Com o passar do tempo, ela começou a recusar nossas ligações e hoje já fazem quase cinco meses em que não temos nenhuma resposta sobre o caso”, critica o pai da desaparecida.

Cristina revela que procurou o Ministério Público Federal (MPF), onde denunciou as investigações da PC-AM. “Protocolamos a denúncia pedindo que o MPF intervisse se alguma forma para dar mais lucidez as investigações para localizar minha filha. Mas, recentemente recebemos uma informação por e-mail de que o inquérito policial seria arquivado. Sinceramente, eu fico desacreditada nessa Justiça. Contudo, continuo confiante de que vou conseguir abraçar novamente a minha filha querida”.

Sempre há esperança 

“As vezes eu acordo chorando, após uma noite de sonhos. Vejo ela presa em um porão, tentando sair, abrir de alguma forma a porta. Quando consegue abrir, acaba desmaiando. Eu então vou até ela, a coloco em meus braços e a retiro daquele lugar. Eu fico tão feliz no sonho, mas ai eu acordo e vejo que aquilo não é real. Bate um desespero e eu fico aos prantos de tanto chorar”, confessa Cristina, dizendo que no último sonho, no dia 2 de outubro deste ano, ela e a filha caminhavam juntas, por uma rua, lado a lado, felizes.

Cristina conta que ficou emocionada ao ver um cartaz com a imagem da filha em um dos jogos da seleção brasileira pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2018, no dia 28 de março deste ano.

“Jogavam Brasil e Paraguai e, no intervalo do jogo, veio a divulgação da imagem, eu chorei muito. Por saber que outras pessoas passam pelo mesmo drama que eu, por acreditar que ainda há esperança, chorava ainda mais. Achei a iniciativa maravilhosa porque é importante ter essa divulgação a nível nacional e até internacional. A gente não tem esse apoio com frequência”.

Atualmente Cristina mantém contato com a mãe do lutador de MMA Vitor Belfort, Maria Jovita Vieira, que procura pela filha, a ex-universiária Priscila Belfort, desaparecida desde o dia 9 de janeiro de 2004. Ela conta que através deste contato encontra forças para continuar procurando a filha.

“A Maria já vem sofrendo esse drama a mais tempo que eu. As mensagens que trocamos por meio do facebook são o que ainda me mantém de pé. Ela sempre pensando de forma positiva, me orientando, dizendo que eu vou sim encontrar a Cinthya. Aprendo muita coisa com ela e assim eu vou sobrevivendo também a esse drama, que é ser mãe de uma pessoa desaparecida”.

A jovem completou 13 anos no dia 3 de maio deste ano. Na ocasião, a família organizou uma missa na igreja de Santo Antônio, no bairro Colônia Santo Antônio, onde reuniu parentes e amigos da desaparecida. Já para este dia 5 de outubro de 2017, a família diz estar sem chão para pensar em o que vai fazer

Morando há quatro anos no Vale do Sinai, Cristina conta que nos primeiros meses após o desaparecimento da filha, sentiu vontade de engravidar, gerar outra menina e batizá-la com o nome de Cinthya, mas o desejo passou em seguida.

“Eu queria homenageá-la para que nunca fosse esquecida. Mas foi apenas uma aflição em um momento de desespero. Hoje eu ainda quero a minha Cinthya de volta e, enquanto eu estiver viva, irei lutar para encontrá-la. Também não passa pela minha cabeça adotar outra criança. Tenho cinco filhos, já contando com a Cinthya, e não preciso de mais um. Preciso apenas dela”, finaliza.

Quem tiver informações que possam levar ao paradeiro de Cinthya Gama Pereira, hoje com 13 anos, pode entrar em contato com a família dela por meio dos números: (92) 99474-9402, (92) 99269-8608, (92) 99135-5732 e (92) 99142-2522.

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